viver é muito perigoso.

Há apenas dois lugares possíveis para uma pessoa. A família é um deles. O outro é o mundo inteiro. Às vezes não é fácil saber em qual dos dois estamos.

—Daniel Galera, Barba Ensopada de Sangue.


Cartografia literária #3:
“O caminho que costumava fazer entre a Satsat e os nossos encontros no edifício Merhamet, o caminho que Füsun percorria diariamente entre a boutique Şanzelize e a sua casa (eu vivia imaginando esse deslocamento) estavam coalhados de minas terrestres e armadilhas da memória que poderiam me condenar à agonia. Marcados no mapa também vinham outros locais que figuram em minha breve história com Füsun, como o terreno baldio onde os devotos sacrificavam cordeiros quando éramos crianças, e até a esquina do pátio da mesquita onde a avistei de longe. Eu trazia esse mapa sempre em minha mente, respeitando suas restrições devido à crença de que só um regime ascético a esse ponto poderia curar, ainda que aos poucos, a doença de que eu padecia.”
O Museu da Inocência - Orhan Pamuk


Cartografia literária #3:

“O caminho que costumava fazer entre a Satsat e os nossos encontros no edifício Merhamet, o caminho que Füsun percorria diariamente entre a boutique Şanzelize e a sua casa (eu vivia imaginando esse deslocamento) estavam coalhados de minas terrestres e armadilhas da memória que poderiam me condenar à agonia. Marcados no mapa também vinham outros locais que figuram em minha breve história com Füsun, como o terreno baldio onde os devotos sacrificavam cordeiros quando éramos crianças, e até a esquina do pátio da mesquita onde a avistei de longe. Eu trazia esse mapa sempre em minha mente, respeitando suas restrições devido à crença de que só um regime ascético a esse ponto poderia curar, ainda que aos poucos, a doença de que eu padecia.”

O Museu da Inocência - Orhan Pamuk


Cartografia literária #2:

“É à África que quero incessantemente voltar, à minha memória de criança. À fonte de meus sentimentos e de minhas determinações. O mundo muda, é certo, e aquele que lá está, em pé no meio do alto capinzal da planície, no sopro quente do vento que traz os cheiros da savana, o rumor penetrante da floresta, sentindo nos lábios a umidade das nuvens e do céu, aquele lá está tão longe de mim que não há história ou viagem que me permita alcançá-lo.

Às vezes, no entanto, vou andando ao acaso pelas ruas de uma cidade e, bruscamente, ao passar por uma porta, na parte baixa de um imóvel em construção, aspiro aquele cheiro frio de cimento recém-moldado e eis que estou na choupana de passagem de Abakaliki, eis que entro no cubo sombrio do meu quarto e ejo atrás da porta o grande calango azul que nossa gata estrangulou e me trouxe como um sinal de boas-vindas. Ou então, quando menos espero, sou invadido pelo perfume de terra molhada do nosso quintal em Ogoja, quando a chuva de monção rola pelo telhado da casa para ir zebrar riachinhos cor de sangue no solo todo fendido. Chego até a escutar, por cima da vibração dos carros engarrafados numa avenida, a música contundente e doce do rio Aiya.”

O Africano - Jean-Marie Gustave Le Clézio

Cartografia literária #1:
“Carolina é um lugar morto, como disse Quain ao desembarcar ali pela primeira vez, mas que tem a sua graça, ainda mais hoje, por ser resultado de uma tranquila decadência e abandono, como se tudo tivesse parado e sido preservado no tempo. A estrada que vem de Araguaína desemboca em frente a cidade, do outro lado do Tocantins, no que a rigor não passa de um povoado, não mais que umas poucas ruas, mas ao qual deram o nome extraordinário e inverossímil de Filadélfia.”
Nove Noites - Bernardo Carvalho

Cartografia literária #1:

“Carolina é um lugar morto, como disse Quain ao desembarcar ali pela primeira vez, mas que tem a sua graça, ainda mais hoje, por ser resultado de uma tranquila decadência e abandono, como se tudo tivesse parado e sido preservado no tempo. A estrada que vem de Araguaína desemboca em frente a cidade, do outro lado do Tocantins, no que a rigor não passa de um povoado, não mais que umas poucas ruas, mas ao qual deram o nome extraordinário e inverossímil de Filadélfia.”

Nove Noites - Bernardo Carvalho

Uma lista aos domingos #1

i. Umberto Eco @ Spiegel:

We have a limit, a very discouraging, humiliating limit: death. That’s why we like all the things that we assume have no limits and, therefore, no end. It’s a way of escaping thoughts about death. We like lists because we don’t want to die.

ii. Fiona Apple @ Pitchfork:

Once the song starts, it’s as though you have gotten drunk and you can’t help it. The room just starts spinning. But you wake up later and you’re fine; when I come out of the song, I’m out of it. 

iii. Joan Didion, On Self-Respect @ We Tell Ourselves Stories In Order To Live:

To have that sense of one’s intrinsic worth which constitutes self-respect is potentially to have everything: the ability to discriminate, to love and to remain indifferent. To lack it is to be locked within oneself, paradoxically incapable of either love or indifference.

iv. Metodologias, por Duarte Amaral Netto + Rodrigo Peixoto:

v. El Chavo del Pina: