cada célula carrega em si o universo.

cada célula carrega em si o universo.

Expression is a way of dealing with time, with the unbearable tic-tac-tic-tac which takes us closer and closer to the end, each and every day. It is also a way of dealing with everydayness itself, with its own absurdity and overwhelming triviality. With leaving something behind so that one thinks one won’t be forgotten. It is a scream that desperately claims for response. It is about memory, and trying not to forget. About trying to keep hold of life when life seems to slip away, every day, through our fingers.

O talento é apenas um instrumento. É como ter uma caneta que funciona em vez de uma que não funciona. Não quero dizer que sou capaz de trabalhar com consistência a partir dessa premissa, mas me parece que a grande distinção entre a boa arte e a arte mais ou menos reside em algum lugar perto do seu coração, da consciência por detrás do texto. Tem algo a ver com o amor, com obter a disciplina de falar a partir da parte de você que ama em vez da parte que apenas quer ser amada.

David Foster Wallace, 1993.

Dizem que tinha nome russo, mas insistia que o chamassem apenas de Major. Que hoje virou andarilho, fica vagando sem rumo pela vizinhança. De vez em quando o Astolfo, que vende mel na cidade quando as abelhas produzem mais do que a vila pode consumir, diz ter visto o Major na beira da estrada, pedindo água ou trocado no posto do trevo da BR. Bate continência sempre que ganha alguma coisa. Triste destino.

verossimilhança #1

verossimilhança #1

Um, dois, três, quatro, catorze postes. Quinze, vinte, trinta e seis, cinquenta e cinco postes. Os postes se movem e eu estou quieta. Avançam para trás, em direção ao que já passou. Mesmo que meu pai parasse de dirigir, se ele se negasse a acelerar, freasse de repente, esses postes e essas linhas seguiriam viagem. Não vamos mais à praia. Nem queremos mais ir à praia. Estamos numa faixa sem fim, e nosso carro está detido nela, obrigado a ficar ali enquanto tudo ao nosso lado desliza sem cessar, sem cansar. É a pena que cada um dos dois lados deve pagar. Isso de seguir avançando é a pena. Saber que tudo avança é a pena.

Inés Bortagaray.

destino: crepúsculo.

destino: crepúsculo.

Olho agora essas camisas, estendo-as sobre a cama. Gosto de uma em especial, cor azul petróleo. Acabo de prová-la, definitivamente fica pequena em mim. Olho-me no espelho e penso que a roupa dos pais deveria sempre ficar grande em nós. Mas penso também que precisava disso; que às vezes precisamos nos vestir com a roupa dos pais e nos olhar demoradamente no espelho.

Alejandro Zambra.

Narrar, em Coutinho, é uma operação que singulariza, mas não porque conduz necessariamente à verdade, e sim porque a pessoa que narra, ao narrar, se coloca em cena, se estiliza, se estetiza, e nesse trabalho de autoprodução, refunda uma subjetividade e, com ela, o seu direito à palavra.

Alan Pauls sobre Eduardo Coutinho.

uma lista anticarnavalesca.

i. um segundo e a vida vira estória.

ii. John Cage e o silêncio:

"Quando ouço o que chamamos de música hoje me parece que alguém está falando, falando de seus sentimentos, de suas ideias, de relacionamentos. Mas quando eu ouço o tráfego, o som do tráfego, aqui na 6a. avenida, por exemplo, eu não sinto ninguém falando. Eu sinto que o som está atuando, e eu amo a atividade do som. (…) A experiência sonora que eu prefiro em relação a todas as outras é a experiência do silêncio, e o silêncio, hoje, praticamente no mundo todo, é tráfego."

iii. Lina Bo Bardi sobre Cage e o Masp:

"Quando o músico e poeta americano John Cage veio a São Paulo, de passagem pela avenida Paulista, mandou parar o carro na frente do Masp, desceu e, andando de um lado para outro do belvedere, os braços levantados, gritou: “É a arquitetura da liberdade!”. Acostumada aos elogios pelo “maior vão livre do mundo, com carga permanente, coberto em plano”, achei que o julgamento do grande artista talvez estivesse conseguindo comunicar aquilo que queria dizer quando projetei o Masp: o museu era um “nada”, uma procura da liberdade, a eliminação de obstáculos, a capacidade de ser livre perante as coisas."

iv. Itamar canta a dor de Leminski:

"Um homem com uma dor
É muito mais elegante
Caminha assim de lado
Com se chegando atrasado
Chegasse mais adiante”

v. Mais um grande que se vai:

Zoom Info
  • Camera
  • ISO
  • Aperture
  • Exposure
  • Focal Length
  • Olympus E-M5
  • 640
  • f/1,8
  • 1/2th
  • 17mm

Disse que as máquinas o despertaram às sete da manhã. Que chegou para a vigília na noite anterior como de costume. Que não resistiu ao cansaço. Que estava, sim, cansado daquilo tudo – não tinha mais idade para levantar bandeiras. Que aquela casa era tudo o que lhe restava. Que não sabia o que fazer ou aonde ir. Que se culpava por ter dormido. Que o estrondo que fizeram ao derrubar a primeira parede ecoou pela casa e o assustou mais do que os pesadelos que tivera nos últimos dias. Que estremeceu quando a luz entrou pelo buraco aberto pela máquina e projetou suas garras na parede. Que sua vida transformara-se em uma imensa ruína. Que a derrota tinha sabor azedo.