Cartografia literária #4:

"Ele deu seta e saiu, dobrou a primeira à esquerda, depois outra à esquerda, de volta à Dronningens, e logo avistamos a casa dos nossos avós desde a ponte, amarela e imponente sobre a pequena marina e o cais do porto. Subimos a Kuholm e entramos na pequena rua, tão estreita que era preciso invadir o acostamento para chegar ao portão e finalmente estacionar próximo aos degraus. Eu tinha visto meu pai fazer aquilo talvez uma centena de vezes durante a infância, e o fato de Yngve agora fazer exatamente a mesma coisa trouxe à tona lágrimas que só um bloqueio mental impediu que rolassem novamente pelo meu rosto."

A Morte do Pai (Minha Luta #1) - Karl Ove Knausgård

We tell ourselves stories in order to live…We look for the sermon in the suicide, for the social or moral lesson in the murder of five. We interpret what we see, select the most workable of the multiple choices. We live entirely, especially if we are writers, by the imposition of a narrative line upon disparate images, by the “ideas” with which we have learned to freeze the shifting phantasmagoria which is our actual experience.

Joan Didion

Escrever o vazio

Eu poderia falar do homem que vejo pela janela, caminhando solitário pela madrugada, e descrever a sequência de movimentos que ele faz ao catar uma bituca de cigarro do chão e aspirar as 4.600 substâncias do tabaco desprezado por um estranho. Talvez eu lhe atribuísse uma profunda e desesperançada solidão. Talvez ele se transformasse em um artista atormentado pela tela em branco, em um andarilho romântico perdido na noite suja, em um simples bêbado. Talvez não.

Eu poderia lembrar e recontar os detalhes da manhã de carnaval em que um ônibus atravessou o sinal vermelho na Avenida Nove de Julho e quando, por um instante, só o que eu podia sentir era o tecido do airbag em contato com a pele do meu rosto, e só o que eu podia pensar era que um segundo a mais ou a menos, ali, naquele cruzamento e naquele amanhecer, teriam mudado a história completamente.

Eu poderia falar do dia em que, anos atrás, percorrendo os corredores empoeirados de uma livraria em Nova York (“18 milhas de livros”, dizia o letreiro), me deparei com a lombada de um volume que se bastou pelo título. Eu não sabia então, mas ele me assombraria por muito tempo: “We tell ourselves stories in order to live”, repete Joan Didion em várias páginas, e eu me perguntava (e ainda pergunto) se não será a isso que o existirmos se destina.

Eu poderia contar a história de um domingo de janeiro quando, pouco depois de entrar em um ônibus na Avenida Rio Branco, fui atravessado pela lembrança daquele livro no momento em que lia a carta de um pai de nome João, que confessava à filha recém-nascida a dor de saber que não viveria tempo suficiente para vê-la adulta. E eu olhava pela janela do ônibus e pensava na fragilidade de tudo aquilo a que assistia – uma mulher de fita no cabelo sobe a passarela com um bebê no colo e de mãos dadas com outra criança que, no caminho, atira sua pipoca tingida para os pombos, que por sua vez bicam os grãos vermelhos e levantam voo quando passa o velho com o saco de latas, e assim por diante – e tudo parecia se encaixar de uma forma ao mesmo tempo extasiante e estarrecedora.

Eu poderia falar, por fim, da manhã chuvosa de uma terça-feira de agosto, no despertar de um dia em que o barulho da cidade foi subitamente substituído pelo vazio. Notícias desencontradas, mensagens não respondidas, um avião desgovernado, uma série de negações que apontavam para o abismo. Amigos pediram que eu escrevesse, e por algum tempo cheguei a acreditar que as palavras viriam, me atravessariam. Como se o luto fosse o momento próprio da escrita. Como se não houvesse outra saída a não ser descer às profundezas do sentimento em busca de palavras. Como se fosse possível escrever o vazio, essa ausência que é a própria dor de não poder alcançá-lo, o vazio; a dor do impossível, do inevitável, do incompreensível. Inefável. Como se não estivéssemos, o tempo todo, equilibrando-nos em torno desse abismo, rabiscando linhas a um passo da queda. Nós, os vivos.

Para o coração a vida é simples: ele bate enquanto puder. E então para. (p. 7)

Agora eu via somente a ausência de vida. E já não havia diferença entre aquilo que um dia fora meu pai e a mesa onde ele jazia, ou o chão onde estava a mesa, ou a tomada na parede embaixo da janela, ou o fio que ia até a luminária ao lado dele. Pois os seres humanos são apenas formas em meio a outras formas, as quais o mundo não cessa de reproduzir, não só naquilo que tem vida, mas também naquilo que não tem, desenhado na areia, na pedra e na água. E a morte, que eu sempre considerara a maior dimensão da vida, escura, imperiosa, não era mais que um cano que vaza, um galho que se quebra ao vento, um casaco que escorrega do cabide e cai no chão. (p. 511)

Karl Ove Knausgård

Há dias em que o passado me acorda e não posso desvivê-lo. Esfrego os olhos buscando desanuviar a manhã que embaça o dia. Deixo a cama carregado pelos fados de ontem. Encaminho-me à cozinha sabendo não encontrar brasas cobertas de cinzas. Sorvo um pouco de café, e o sabor do quintal de meu avô já não me vem à boca. Sem possuir um olho de vidro, diviso o mundo vivido do mundo sonhado, com a nitidez da loucura. Meu real é mais absurdo que minha fantasia. O presente é a soma de nostalgias, agora irremediáveis. A memória suporta o passado por reinventá-lo incansavelmente. Tento espantar o presente balbuciando uma nova palavra. Tudo é maio, tudo é seco, tudo é frio.

Bartolomeu Campos de Queirós

uma lista para dar sentido, #4

i. um livro em três viagens de ônibus:

"           eu ia te ensinar por que de não em não o tempo se sacia de nós, o tempo nos nega os desejos e nos avilta os sonhos, por que não existe a terra prometida senão em nós, e por que ela está cercada de continentes barrentos e istmos movediços,"

Caderno de um ausente, João Anzanello Carrascoza

ii. uma trilha sonora para a viagem:

iii. dos ligeiros desvios na cidade cinza:

iv. dos sismos e desvarios:

poder provisório @ MAM-SP

v. um show para encerrar: