Há dias em que o passado me acorda e não posso desvivê-lo. Esfrego os olhos buscando desanuviar a manhã que embaça o dia. Deixo a cama carregado pelos fados de ontem. Encaminho-me à cozinha sabendo não encontrar brasas cobertas de cinzas. Sorvo um pouco de café, e o sabor do quintal de meu avô já não me vem à boca. Sem possuir um olho de vidro, diviso o mundo vivido do mundo sonhado, com a nitidez da loucura. Meu real é mais absurdo que minha fantasia. O presente é a soma de nostalgias, agora irremediáveis. A memória suporta o passado por reinventá-lo incansavelmente. Tento espantar o presente balbuciando uma nova palavra. Tudo é maio, tudo é seco, tudo é frio.

Bartolomeu Campos de Queirós

uma lista para dar sentido, #4

i. um livro em três viagens de ônibus:

"           eu ia te ensinar por que de não em não o tempo se sacia de nós, o tempo nos nega os desejos e nos avilta os sonhos, por que não existe a terra prometida senão em nós, e por que ela está cercada de continentes barrentos e istmos movediços,"

Caderno de um ausente, João Anzanello Carrascoza

ii. uma trilha sonora para a viagem:

iii. dos ligeiros desvios na cidade cinza:

iv. dos sismos e desvarios:

poder provisório @ MAM-SP

v. um show para encerrar:

uma lista para dar sentido, #3

i. um poeta:

Sinto-me compelido ao trabalho literário:

Pelo desejo de suprir lacunas da vida real; pela minha teimosia em rejeitar as “avances” da morte (tolice: como se ela usasse o verbo adiar); pela falta de tempo e de ideogramas chineses; pela minha aversão à tirania — manifesta ou súb­dola —, à guerra, maior ou menor; pelo meu congênito amor à liberdade, que se exprime justamente no trabalho literário; pelo meu não-reconhecimento da fronteira realidade-irrealidade; pelo meu dom de assimilar e fundir elementos díspares; pela certeza de que jamais serei guerrilheiro urbano, muito menos rural, embora gostasse de derrubar uns dez ou quinze governos dos quais omitirei os nomes: receio que outros governos excluí­dos da minha lista negra julguem que os admiro, coisa absurda; (…)

Murilo Mendes

ii. uma música:

(Mergulhar na surpresa - Maurício Pereira)

iii. outra música e uma descoberta:

(Sergei Rachmaninoff - Concerto no. 2 para piano e orquestra, Opus 18, Segundo Movimento)

a semelhança não será mera coincidência:

(Eric Carmen - All by myself)

iv. um filme:

v. um brinquedo inútil:

e a história por trás da máquina:

A casca das palavras é frágil e ressecada. Eu te amo, diz o texto. Talvez entre o ‘eu te amo’ e o amor propriamente dito haja um espaço intransponível. Talvez o tempo que passa. Mas não apenas. Talvez um inevitável desencontro. Essa incoerência. Leio o texto como se fosse parte de um romance. Talvez seja isso, e quando o amor acaba resta apenas a ficção.

Carola Saavedra

Expression is a way of dealing with time, with the unbearable tic-tac-tic-tac which takes us closer and closer to the end, each and every day. It is also a way of dealing with everydayness itself, with its own absurdity and overwhelming triviality. With leaving something behind so that one thinks one won’t be forgotten. It is a scream that desperately claims for response. It is about memory, and trying not to forget. About trying to keep hold of life when life seems to slip away, every day, through our fingers.