Para o coração a vida é simples: ele bate enquanto puder. E então para. (p. 7)

Agora eu via somente a ausência de vida. E já não havia diferença entre aquilo que um dia fora meu pai e a mesa onde ele jazia, ou o chão onde estava a mesa, ou a tomada na parede embaixo da janela, ou o fio que ia até a luminária ao lado dele. Pois os seres humanos são apenas formas em meio a outras formas, as quais o mundo não cessa de reproduzir, não só naquilo que tem vida, mas também naquilo que não tem, desenhado na areia, na pedra e na água. E a morte, que eu sempre considerara a maior dimensão da vida, escura, imperiosa, não era mais que um cano que vaza, um galho que se quebra ao vento, um casaco que escorrega do cabide e cai no chão. (p. 511)

Karl Ove Knausgård

Há dias em que o passado me acorda e não posso desvivê-lo. Esfrego os olhos buscando desanuviar a manhã que embaça o dia. Deixo a cama carregado pelos fados de ontem. Encaminho-me à cozinha sabendo não encontrar brasas cobertas de cinzas. Sorvo um pouco de café, e o sabor do quintal de meu avô já não me vem à boca. Sem possuir um olho de vidro, diviso o mundo vivido do mundo sonhado, com a nitidez da loucura. Meu real é mais absurdo que minha fantasia. O presente é a soma de nostalgias, agora irremediáveis. A memória suporta o passado por reinventá-lo incansavelmente. Tento espantar o presente balbuciando uma nova palavra. Tudo é maio, tudo é seco, tudo é frio.

Bartolomeu Campos de Queirós

uma lista para dar sentido, #4

i. um livro em três viagens de ônibus:

"           eu ia te ensinar por que de não em não o tempo se sacia de nós, o tempo nos nega os desejos e nos avilta os sonhos, por que não existe a terra prometida senão em nós, e por que ela está cercada de continentes barrentos e istmos movediços,"

Caderno de um ausente, João Anzanello Carrascoza

ii. uma trilha sonora para a viagem:

iii. dos ligeiros desvios na cidade cinza:

iv. dos sismos e desvarios:

poder provisório @ MAM-SP

v. um show para encerrar:

uma lista para dar sentido, #3

i. um poeta:

Sinto-me compelido ao trabalho literário:

Pelo desejo de suprir lacunas da vida real; pela minha teimosia em rejeitar as “avances” da morte (tolice: como se ela usasse o verbo adiar); pela falta de tempo e de ideogramas chineses; pela minha aversão à tirania — manifesta ou súb­dola —, à guerra, maior ou menor; pelo meu congênito amor à liberdade, que se exprime justamente no trabalho literário; pelo meu não-reconhecimento da fronteira realidade-irrealidade; pelo meu dom de assimilar e fundir elementos díspares; pela certeza de que jamais serei guerrilheiro urbano, muito menos rural, embora gostasse de derrubar uns dez ou quinze governos dos quais omitirei os nomes: receio que outros governos excluí­dos da minha lista negra julguem que os admiro, coisa absurda; (…)

Murilo Mendes

ii. uma música:

(Mergulhar na surpresa - Maurício Pereira)

iii. outra música e uma descoberta:

(Sergei Rachmaninoff - Concerto no. 2 para piano e orquestra, Opus 18, Segundo Movimento)

a semelhança não será mera coincidência:

(Eric Carmen - All by myself)

iv. um filme:

v. um brinquedo inútil:

e a história por trás da máquina:

A casca das palavras é frágil e ressecada. Eu te amo, diz o texto. Talvez entre o ‘eu te amo’ e o amor propriamente dito haja um espaço intransponível. Talvez o tempo que passa. Mas não apenas. Talvez um inevitável desencontro. Essa incoerência. Leio o texto como se fosse parte de um romance. Talvez seja isso, e quando o amor acaba resta apenas a ficção.

Carola Saavedra